"A cidadania em Aristóteles e na cultura grega clássica"
1. Se considerarmos
o legado que a cultura grega clássica deixou ao Ocidente, é com a maior dificuldade que
isolaremos um único aspecto, presente no mundo contemporâneo, a tal ponto a nossa
realidade social e cultural é, nos mais diversos domínios, ainda hoje marcada pela
herança helénica. Também, no passado, igual dificuldade se fez sentir, pois
repetidamente a História nos mostra como, a partir d0s princípios gregos originais, cada
época e cultura se definem pela recepção e crítica a que os submetem.
Mesmo assim, nesta
unanimidade, há dois casos que, pela especificidade dos domínios em que se manifestam,
despertam a maior admiração. Refiro-me à teoria atómica, que, a partir do séc. XVII,
veio ganhando cada vez maior proeminência, até se tornar na concepção hoje ainda
correntemente aceite sobre a constituição íntima da matéria; e à noção de
cidadania, que, num planeta globalizado, marca ainda a diferença que distingue o mundo a
que chamamos Ocidental, do resto, que, com notável incorrecção politica, poderíamos
hoje chamar "bárbaro". É a este último caso que quero dedicar alguma
atenção.
2. Das diversas
perspectivas pelas quais a questão da cidadania grega pode ser abordada
nomeadamente a histórica e a filosófica , opto por me concentrar nesta última e
num único autor, cujo tratamento do tema a todos os títulos se pode considerar de uma
surpreendente actualidade. Refiro-me a Aristóteles e à sua Política, em
particular aos Livros A e G .
2.1 Apesar de não
me interessar aqui tanto pelo estudo das concepções políticas de Aristóteles, quanto
pela compreensão da sua relevância actual, torna-se necessário começar por referir
dois princípios formais que comandam toda a sua filosofia da acção. O primeiro é o que
associa estreitamente Ética e Política, integrando a primeira na segunda. O segundo é o
traço teleologístico forte, em virtude do qual a explicação da actividade de um ente
qualquer só é possível pela inserção deste num contexto finalista: na posição
subordinada de meio para um fim, ou, na subordinante, de fim visado por um ou mais meios.
A convergência
destes dois princípios nota-se bem na Política. O tratado começa ex abrupto,
interrogando-se sobre a finalidade visada pela cidade, encarada com a suprema forma de
associação (koinônia). Porém, por detrás desta pergunta, acham-se outras
implícitas: sobre a melhor vida que convém ao homem, considerado individual e
colectivamente e sobre a própria natureza humana.
O Estagirita tenta
responder à primeira de uma perspectiva diacrónica. Desde sempre os homens se viram
obrigados a associar-se, sendo possível distinguir três tipos de associação: a
família, a aldeia e a cidade. Cada uma destas visa um bem, uma finalidade própria,
evidente nos dois primeiros casos: a procriação e satisfação das carências e a
melhoria das condições de vida. Mas o bem da cidade não se encontra ao nível destes,
tal como a própria cidade não pode ser caracterizada como uma associação, apenas
quantitativamente mais dilatada do que as que a precedem no tempo.
Implícita acha-se
uma crítica a Platão, apresentada logo a seguir (1252a7-16). Mas o mais interessante é
o desenvolvimento de um argumento a priori, cujo alcance se pode exclusivamente
compreender no contexto da filosofia aristotélica. Trata-se de um daqueles argumentos que
desesperam as mentes analíticas e constituem exemplos quase paradigmáticos de como
raciocina um filósofo clássico. Vale a pena reproduzi-lo.
"A cidade é
uma comunidade (koinônia) completa, formada a partir de várias aldeias e que, por
assim dizer, atinge o máximo de auto-suficiência. Formada a princípio para preservar a
vida, a cidade subsiste para assegurar a vida boa. É por isso que toda a cidade existe
por natureza, tal como as comunidades primeiras. A cidade é o fim destas e a natureza de
uma coisa é o seu fim, já que, sempre que o processo de génese de uma coisa se encontra
completo, é a isso que chamamos a sua natureza, seja de um homem, de um cavalo, ou de uma
casa. Além disso, a causa final, o fim de uma coisa, é o seu melhor bem, e a
auto-suficiência é, simultaneamente, um fim e o melhor dos bens" (A2,
1252b27-1253a2).
O passo contém a
primeira definição de cidade apresentada na obra e requer alguns esclarecimentos. É
essencial compreender o alcance de dois termos. Em primeiro lugar, o uso do adjectivo
completa (teleios), que caracteriza a cidade como termo da evolução
"famílias aldeias cidades", significa que este não poderá se
conhecer um estádio ulterior. É essa evolução semelhante à que se pode
observar tanto em seres naturais ("homem", "cavalo"), como em
artificiais ("casa") que permite a Aristóteles caracterizar a cidade
como um ser natural, para o qual tendem as comunidades primeiras, que dela constituem
momentos anteriores.
Mas porquê
"natural"? Poderemos perguntá-lo, antes de mais, porque a isso o próprio
Estagirita nos convida, ao apresentar o exemplo da casa (cujo objectivo é mostrar que
também os seres artificiais sofrem evolução). Mas a questão tem a maior importância,
por três razões.
"Natural"
contrapõe-se a "artificial" e a "convencional". Aristóteles
esclarece que a cidade não é o mero produto do crescimento quantitativo das
formas de associação, nem decorre apenas do consenso dos que nela participam,
embora implique uma decisão proairesis humana (1252a28; vide
1253a29-31). É, pelo contrário, uma entidade autónoma, da qual as referidas formas
anteriores constituirão momentos "incompletos". Só essa distinção permite
conceber que a cidade seja determinada pelo fim que visa: a auto-suficiência (autarkeia)
do homem.
Apesar de não
provado, o argumento é importante, fornecendo a única base para a compreensão da
celebérrima tese segundo a qual "o homem é um animal político" (1253a1-2, passim).
Significa ela que a cidade foi, por natureza, criada com a finalidade de proporcionar ao
homem a auto-suficiência de que não poderá desfrutar de outro modo.
Com esta tese se
conclui a demonstração da diferença qualitativa da cidade, em relação às comunidades
que a precederam, limitadas à subsistência, preservação e simples melhoria das
condições de vida. Pois a auto-suficiência, proporcionada pela cidade, decorre da
exigência de "completamento" da natureza do homem (como confirmam os exemplos
de Homero e da peça separada de um jogo: a3-7).
Mas o argumento
ainda não ficou suficientemente esclarecido, pois também as abelhas são gregárias (e
não vivem em cidades; tal como também a casa, de algum modo, promove a auto-suficiência
do homem). Enfim, a prova de que é a necessidade de proporcionar ao homem a sua
auto-suficiência que conduz à vida em cidades é dada pelo facto de só o homem possuir
a palavra e a razão (logos: a9-10). É esta capacidade distinta da mera
posse da voz que serve para discernir o útil e o prejudicial, o justo e o injusto,
logo o bem e o mal (a10-17). Daqui resulta a necessária anterioridade "por
natureza" da cidade, em relação à família e ao indivíduo, pois o indivíduo
separado não é auto-suficiente (tal como a mão, em relação ao corpo), circunstância
que implica que "só um bicho ou um deus" não tenham de fazer parte de qualquer
cidade.
2.2 São muitas as
lições a extrair deste argumento. Em primeiro lugar, há que não cometer o erro
grosseiro de o tomar como uma teoria "científica" sobre a formação da cidade.
A finalidade do argumento é acrescentar à definição da natureza humana
conjunção da animalidade com a racionalidade a tendência associativa decorrente
da segunda.
A questão pode
exprimir-se em termos bem simples. Se a natureza criou o homem com fala e pensamento (logos),
criou também a cidade, por esta ser o único lugar em que os pode exercitar
adequadamente. O prolongamento do argumento no domínio da ética, até agora marginal,
ganhará na continuação toda a relevância. Se é pelo logos que o homem
distingue o bem e o mal, a vida política não senão justamente consistir na
prossecução da finalidade constituída pelo bem.
Assim se atinge
também a resposta à pergunta implícita sobre a finalidade da vida política. É esta
que é costume traduzir pelo enganador termo felicidade (em Grego, eudaimonia
significa, em sentido próprio, "tutelado por um bom espírito").
Mas aqui há que
distinguir dois planos. Individualmente considerada, a busca do bem é equivalente à
"boa vida", à "virtude". Mas, inserido na realidade política, esse
ideal só pode ser atingido por certos indivíduos e mediante certas condições, a saber,
no seio das cidades e em total dependência delas.
É neste ponto que o
argumento até agora a priori é forçado a transformar-se num estudo
descritivo da diversidade de aspectos característicos da vida política. Neste sentido,
Aristóteles condensa as soluções pensadas pelos homens em três tipos de cidades e de
constituições (politeiai), por sua vez divididas em dois grupos: as correctas e
os desvios a que estas podem dar origem.
2.4 Resolvido o
primeiro problema, Aristóteles passa logo ao segundo. Mas a natureza deste novo problema
não é clara, pois a continuação do texto dá conta de um aparente non sequitur.
A2 conclui definindo justiça como:
"a ordem da
comunidade dos cidadãos e consiste no discernimento do que é justo" (1253 a37-38).
A3 é iniciado pela
afirmação:
"Agora que é
claro quais as partes que compõem a cidade..."
Mas o que é claro
é que até agora não se falou de quaisquer "partes da cidade" (a menos que
considere aqui a família e a aldeia como as partes da cidade, mas então Aristóteles vai
conferir outro sentido à expressão adiante, a qual ocupará posição fulcral na
problemática da Política). Torna-se, portanto, capital determinar que partes são
estas e que importância têm para o filósofo? Para responder à pergunta, há que
considerar o que se disse até agora e ver como entronca no que se lhe segue.
Viu-se que toda a
associação visava um bem, específico para cada uma das três consideradas: família,
aldeia e cidade. Mas a questão vai agora ser abordada pela perspectiva dos participantes
em cada uma delas; quem são, como se relacionam e como conseguem os seus objectivos. No
seio da família, Aristóteles isola três relações entre duas partes: senhor e escravo,
marido e mulher, pai e filhos. No contexto do esclarecimento da noção de autarkeia,
o problema residirá então em descobrir em que é que ser cidadão se assemelha a e, por
outro lado, se distingue de ser senhor de escravos, marido de uma mulher e pai de filhos.
A relação mais
nítida é a que opõe e ao mesmo tempo une o senhor ao escravo. A dupla
relação converge no facto de o senhor ser, por definição, aquele que constitui um fim
em si mesmo, enquanto, pelo contrário, o escravo é o animal que serve um fim que lhe é de
todo alheio (por não poder ter, nem ser, fim em si próprio).
Esta oposição é
capital para perceber a Política. Referi atrás o teleologismo de Aristóteles,
mas não cheguei a notar quanto reflecte um traço da cultura grega. Pois, além de os
homens se distinguirem relativamente aos fins que perseguem, também se podem distinguir
hierarquicamente os fins: quando beneficiam o próprio, constituem-se como
"acção" (praxis); quando beneficiam outro, como "produção" (poiêsis).
Nesse sentido, é
evidente que como nenhum senhor poderá alguma vez servir de fim a outrem sem alienar a
sua condição, daí resulta que nem:
um senhor se pode dedicar à
produção;
quem produz pode ser um senhor.
As consequências
deste interdito são, é claro, imensas, constituindo um dos fios condutores da Política.
A questão será a
de compreender o tipo de relação que se desenvolve na cidade. Já se viu porque os
escravos se acham necessariamente afastados dela. Mas a relação que mantêm com os
senhores pode servir de paradigma, visto implicar uma analogia em ambos os casos
há exercício do poder e uma diferença (A7, 1255b16-20). Daqui resulta que,
quando o poder é sobre escravos, se fala de dominação (despoteia) e quando é
sobre homens livres, de governo (politikê).
É esta distinção
que vai fazer a aldeia cair no esquecimento e as relações familiares transformarem-se
num mero apêndice. Mas é claro que a função que desempenham no argumento foi já
realizada (pela caracterização da cidade como um "todo" de "partes",
diferentes e "desiguais"). Resta então identificá-las (a questão começa a
ser abordada adiante, G 9, 1280a7-25, ibid. 12, 1282b14-1283a25).
Mas, para tal, há
que compreender o que é um cidadão. O tópico constituirá o núcleo do Livro G ,
todavia, até lá, a questão das "partes da cidade" fica mantida em suspenso.
3. O livro G
mostra-nos Aristóteles na sua veia de problematizador, apresentando ao leitor duas
perguntas encadeadas:
O que é uma cidade?
Resposta: "a
massa (plêthos) dos cidadãos" (1256b38).
O que é um cidadão?
Resposta:
"[aquele que tem] a capacidade de participar na administração da justiça e
do governo" (1275a22-23).
Mas estas respostas
não bastam, pois terão agora de ser examinadas pela perspectiva do regime de cada
cidade, nomeadamente nos casos de uma democracia e uma oligarquia (1275a3-5), pelo facto
de a noção de cidadão nelas variar significativamente. Desta objecção resultam duas
consequências programáticas:
a definição de cidadão terá de
ser submetida a crítica;
2) torna-se
necessário estudar exaustivamente os regimes vigentes nas cidades gregas.
Tal curso de
investigação é ditado pela finalidade que Aristóteles pretende atingir: a de chegar a
uma concepção de cidade e de cidadão que cubra a diversidade
política grega e possa, ao mesmo tempo, servir para definir uma norma.
Mas as dificuldades
são de várias naturezas. Mesmo antes de apresentar a primeira definição, a
consideração de uma série de objecções relevantes (1275a5-23) deixa-nos entrever o
"impressionismo" do critério adoptado. A questão reside em saber "em
quê" é a participação, em que circunstâncias e com que objectivos?
Falar em
"administração da justiça e do governo" implica magistraturas. E aí a
impossibilidade de concretizar, mantendo a abrangência da investigação, obriga
Aristóteles à invenção da figura da "magistratura indefinida", a qual
cobrirá um conjunto dos cargos não específicos, para os quais todos podem, ou não, ser
eleitos.
Mas de novo as
diferenças entre as constituições (politeiai) baralham a questão, pois todas
elas se reservam o direito de introduzir restrições, que chegam a afectar a própria
cidadania. Perante esta dificuldade, Aristóteles é obrigado a partir da concepção de
cidadão numa democracia (1275b5-6), que ajustará depois aos outros regimes. São estas
duas reservas que o conduzem à primeira reformulação das definições:
"Chamamos
cidadão àquele que tem o direito de participar nos cargos deliberativos e judiciais da
cidade. Consideramos cidade, em resumo, a massa de cidadãos suficiente para viver em
autarquia" (1275b19-21).
Mas a resposta
conduz à pergunta sobre a origem do cidadão, contemplando duas possibilidades: a
primeira justa, a segunda injusta. São cidadãos tanto os filhos varões de pai e avô,
ambos cidadãos (1275b21-24), quanto os que adquiram tal estatuto (1276a1-7). Em
complemento, a identidade da cidade é dita decorrer do regime nela vigente (1276b10-11).
Esclarecidas estas
questões prévias, o argumento orienta-se para a questão ética da definição da
virtude do cidadão. Dadas a característica teleologista, a natureza da virtude e a
variedade de regimes políticos, põe-se o problema de compatibilizar a diversidade de
fins que o cidadão deve servir com a perfeição da virtude. Por outro lado, embora a
vida virtuosa seja a própria finalidade servida pela cidade, a desigualdade e as
diferenças que distinguem os cidadãos impedem que todos possam ser homens bons.
Ora, entendendo a
virtude do cidadão comum como "mandar bem e ser bem mandado" (1277a27), a
solução para o diferendo consiste em delimitar a virtude entre um mínimo
condição para o melhoramento da cidade e um máximo, que será esperado apenas do
homem bom. Haverá então como que duas virtudes e dois homens. De um lado ficam o
governante e o homem bom, cuja virtude é mandar, do outro, o cidadão comum, cuja virtude
consistirá em "mandar e obedecer" (ibid. 28-29).
Mas é claro que
esta distinção implicará uma importante limitação, pela qual nem todos os que forem
indispensáveis à cidade se deverão considerar cidadãos, como será o caso dos
artesãos, muitas vezes, metecos (e a fortiori os escravos, as crianças e as
mulheres). Mas o caso deve ser visto à luz dos diferentes regimes.
4. A partir deste
ponto, o raciocínio de Aristóteles torna-se ainda mais profundo e subtil,
concentrando-se na questão central da Política a do poder , em
termos distintos daqueles em que antes fora abordado por qualquer outro pensador.
Da caracterização
do regime (politeia) como:
"a
organização da cidade no que se refere às diversas magistraturas e, sobretudo, às
magistraturas supremas" (1278b9-10),
decorre a do governo
(politeuma) como:
"o elemento
supremo em toda a cidade" ... em que ... "o regime é, de facto, esse
governo" (ibid. 11-12).
Esta identificação
da constituição com o governo, levanta três questões encadeadas. Retomando o Livro A,
a primeira é a das finalidades servidas pela cidade, a mais nítida das quais é a boa
vida, resultante do desejo de vida em comum e da utilidade (1278b19-23), embora se possa
já considerar finalidade a própria "doçura natural" (ibid. 30) da
vida.
Aceite esta,
segue-se-lhe a segunda, porém, de natureza completamente diferente dela. É ele a do
interesse (sympheron) comum a governantes e governados. No caso do senhor e do
escravo, é claro que entre os dois é o interesse do senhor que impera. Já no da casa (oikos),
pelo contrário, é o da mulher e dos filhos (visto a casa existir para a preservação da
família). Mas a situação é problemática no caso do governo da cidade.
É aqui que o
pensamento de Aristóteles começa a torna-se muito actual. Sempre que haja igualdade
entre os cidadãos, o governo é (ou deverá ser) por partes, ou turnos (kata meros:
1279b10), em alternância. Acontece, porém, que,
"devido aos
benefícios derivados dos cargos públicos e do exercício do poder, os homens desejam a
ocupação permanente desses cargos. É como se os ocupantes dos cargos fossem doentes e
apenas recuperassem a saúde quando estão no poder" (ibid. 13-16).
Daqui resulta a
importante distinção, pela qual são considerados correctos os regimes que visam o
interesse comum e desviados os que visam os dos governantes (ibid. 16-20), dela
decorrendo a terceira questão: do regime e da própria cidadania. Uma vez que há três
espécies de governo por um indivíduo, por poucos, ou por muitos , não há
problemas quando o regime visa o interesse comum. Mas, quando não visa (caso dos regimes
desviados),
"ou não deve
ser cidadão quem não participa no regime, ou [se é cidadão] deve participar no
interesse comum" (ibid. 31-32).
Resumindo as três
questões. Se a finalidade da cidade é a boa vida, então esta é o interesse comum dos
que nela participam. Logo, nos regimes que visam o interesse dos que governam, só estes
deveriam ser cidadãos.
4.1 Mas, como assim
não acontece, daqui resulta a distinção entre os regimes correctos a realeza, a
aristocracia e o "de todos os cidadãos" e os desviados que lhes
correspondem: tirania, oligarquia e democracia. Chega-se assim ao núcleo da questão do
poder.
4.2 O problema é
que até agora Aristóteles esteve a desenvolver o seu argumento a priori,
explicando como deveria ser a cidade. Mas agora, a entrada na descrição dos
regimes obriga-o a dizer como ela na realidade é. Por isso não basta falar de
cidadania, de governo e do interesse comum. Há que distinguir duas espécies de poder: o
dos que o têm e o dos que o exercem.
É sabido serem
três os factores que fazem um homem poderoso: a riqueza, as armas e a capacidade. Os dois
primeiros são prerrogativas dos bem-nascidos. Mas o terceiro pode aplicar-se a dois tipos
de homem: o virtuoso e o não virtuoso. Neste último caso, acha-se o tirano. No outro, o
do homem bom.
É, então a estes
que cabe o governo da cidade? Sim e não. A análise do poder tinha dividido a cidade em
duas partes desiguais: a dos governados e a dos governantes. Mas ainda tinha ficado
pendente a recalcada questão das partes da cidade. Depois de longos meandros
devidos em grande parte às implicações éticas da análise política (Aristóteles não
poderá negar que o governo cabe aos "homens bons") a questão é
finalmente abordada.
"Devemos
investigar quantos são os [elementos] sem os quais a cidade não pode existir, que devem
constituir o que designamos por partes da cidade. Enumerar-se-ão, pois, as funções da
cidade para lançar alguma luz nesta questão. Assim, para que exista a cidade, deve antes
de mais existir alimentação; depois, ofícios, já que a vida necessita de muitos
instrumentos; em terceiro lugar, armamento, na medida em que os membros da comunidade têm
necessariamente que possuir armas para usar, quer para manter a autoridade contra os que
se sublevam internamente, quer para repelir as ameaças externas; também deve possuir
certa abundância de recursos não só para colmatar as carências próprias como para
manter o esforço de guerra; em quinto lugar, mas primeiro em importância, vem o cuidado
para com as divindades, a que chamamos culto; em sexto, e é o que é mais necessário, a
capacidade de decisão capaz de discernir sobre o que é vantajoso (sympherontôn)
e justo para uns e outros" (H8, 1328b2-15).
Todos estes devem
existir para que a cidade seja auto-suficiente. Mas não se acham todos ao mesmo nível,
já que uns consubstanciam o próprio fim visado pela cidade, enquanto os outros não
passam de meios, sem os quais ela não existiria (vide supra, 1328a21-b2).
É por isso que os
camponeses e os artesãos não devem fazer parte da cidade. Excluídos estes,
restam os que pegam em armas o corpo dos cidadãos e, entre eles, os ricos,
os sacerdotes e os governantes, propriamente ditos. São estas as partes que concorrem
para que a cidade promova a auto-suficiência do homem.
5. Está então
resolvido o problema de saber como uma comunidade de iguais deve acomodar duas espécies
de desigualdade a social e a política , delas derivando o critério
definidor do regime pelo qual opta. Esta solução e as distinções de que parte mostram
que Aristóteles percebeu perfeitamente o problema do poder: todos se servem dele em seu
benefício, mas só os ricos que são poucos mostram ter
"vocação" para ele. Pelo contrário, quando são os pobres que são
muitos a ocuparem-no, também não deixam de o usar no seu benefício.
Os prolongamentos
éticos da questão: a produção da "felicidade" a partir da auto-suficiência,
a função da mediania na ordem social emergente, o próprio lugar da virtude na vida
política, são excrescências que se adequam ao problema do regime, mas não o
determinam. Compreende-se porquê. Aristóteles sabe perfeitamente que a cidade tem de ser
o que é para poder ser como deve.
Num outro plano se
acha, contudo, a questão da oposição do interesse próprio ao comum. Apesar de o
governante nunca dever pôr os seus interesses acima dos da comunidade, as mais das vezes
é isso mesmo que faz. É o que acontece nos regimes desviados. O caso da tirania e da
oligarquia são clássicos. Historicamente, sabe Aristóteles e todos nós, foram eles que
deram origem à Atenas democrática.
Mas a o caso da
democracia é mais que clássico: é recorrente e ameaça constituir-se como um modelo
eterno. Poderemos perguntar porquê e também por que razão a considerava Aristóteles um
regime desviado, logo, inferior (1275b1-3).
Começando pela
segunda pergunta, sem dúvida, porque em Atenas a massa governava no seu próprio
interesse, como atestam as práticas do ostracismo e da demagogia, das quais resultava um
insanável conflito entre ética e política, que o Estagirita não poderia de algum modo
aceitar. Mas significará isso que, quando a massa legislar no interesse comum o regime é
justo? E, acima de tudo, que esse deve ser considerado o melhor dos regimes?
A questão é
obscura porque, se, por um lado, Aristóteles se limita a referir a correcção do
"regime de todos os cidadãos", por outro, toda a sua análise do poder assenta
na equação entre cidadania e democracia, de que Atenas constitui o exemplo mais
relevante. Finalmente, quando procede à avaliação de cada um dos regimes, coíbe-se de
tomar uma posição definitiva, apontando críticas éticas à realidade política, das
quais resulta uma preferência implícita pelo regime democrático.
Mas uma adesão
plena à democracia não será possível, pela parte de Aristóteles, dado que os
excessos, que o comportamento da massa na Assembleia tornou tão frequentes, degradam
ética e politicamente a cidade.
Esta censura, comum
à generalidade dos críticos da democracia Tucídides, Platão, e até Isócrates
será suficiente para justificar o seu rigor, justificando plenamente a sua atitude
(deste modo respondendo à primeira pergunta feita acima).
6. Extrapolando
agora para a actualidade, quero concluir com algumas questões a que o pensamento
político de Aristóteles não é estranho, assinalando pontos que ora o aproximam, ora o
afastam da realidade em que vivemos. Começo por me interrogar sobre as razões que
explicam a situação em que actualmente nos encontramos, na qual a democracia acabou por
se tornar no modelo do regime "politicamente correcto", no mundo Ocidental,
neste final do II milénio.
Sem pretender
aprofundar o tópico, defendo apenas que essas razões não poderão ser estranhas ao
efeito pedagógico e formativo que as obras dos críticos da democracia exerceram sobre
gerações e gerações de teóricos do Poder.
Tal efeito, porém,
não poderá deixar de reflectir essa característica única da democracia, pela qual ela
se distingue de todos os outros sistemas políticos, que é a perfectibilidade: a sua
capacidade de se aperfeiçoar com o tempo e pela acção das críticas de que é objecto.
Será talvez esse factor que, num mundo em que a mudança é o único factor estável, nos
condena à democracia, pelo facto de ela ser o único regime político que se adequa à
mudança.
Uma segunda questão
é a da actualidade da leitura aristotélica da democracia e da cidadania. O traço que
essencialmente a caracteriza já o disse repetidas vezes é o finalismo.
Poderá parecer que se perdeu, ou se atenuou na actualidade. Todavia, se o buscarmos nas
sociedades actuais, encontrá-lo-emos de novo em acção, embora a partir de bem
diferentes concepções de meios e fins.
Já libertos da
constrição que constituía o cidadão e senhor como o fim para a qual a cidade existe
(associado à omnipresente oposição da acção à produção: A4, 1254a7, passim),
percebemos agora como o finalismo se manteve, porém, invertido. Pois foi a própria
cidade que como sociedade e estado se veio a tornar no fim que o cidadão
deve servir. Neste ponto, que recebe a evolução das doutrinas políticas dos últimos
dois séculos, aqui impossível até de referir, assenta a quase perfeita reconfiguração
do pensamento de Aristóteles pela actualidade. A partir dele começamos a notar os
aspectos em que o seu pensamento se nos foi tornando estranho, continuando embora a
persistir oculto nas concepções actuais.
A finalidade social
primária é agora a felicidade, propriamente dita (já não aquela tutelada pelos
deuses), embora não mais a do cidadão, mas a da sociedade como tal ou a
das nações, descendentes da cidade grega , particularmente na forma que se
expressa pelo bem-estar da sua economia. É esta exigência intangível que aceitamos ser
geradora das assimetrias políticas que continuam a opor poderosos e dominados, ricos e
pobres.
Trata-se de uma
consequência que se pensaria ser impossível de prever por Aristóteles, pelo facto de
ser gerada pelo progresso político e tecnológico. E, no entanto, o livro A da Política
dedica-lhe uma sóbria reflexão, ocupada com as três espécies da
"crematística" (arte da aquisição).
É esta uma
actividade gerada pela difusão da moeda e pela sua consagração como meio universal de
troca. No debate da relevância política desta forma de aquisição (A9, 1256b40-A10,
1258b8), o Estagirita não nega a necessidade da troca, nem censura o recurso à moeda,
encarada como o instrumento que visa facilitá-la. A sua objecção vai contra a
conversão da moeda, de "meio e fim da troca" (à letra; elemento e limite: A9,
1257b23), em ilimitado fim em si mesmo. O vício decorrente desta deturpação dos fins
naturais da propriedade (de que a moeda constitui já o segundo passo: o primeiro é a
própria troca) a pleonexia (o "querer sempre ter mais": E.N. E1,
1129b6-12) traz consigo a ruína dos estados: D 12, 1297a5-13).
Talvez já não haja
quem hoje pense neste risco, encarando esta última fase do capitalismo como um resultado
natural da evolução do sistema. Mas terá de se resignar a assistir ao retorno do estado
grego. É que, por via dela, a distinção que opõe os cidadãos aos não cidadãos
afinal, apenas anulada, ou suspensa durante dois séculos reaparece agora
como exclusão social.
É uma forma de
perversão da cidadania, consequência da inversão da relação entre o cidadão e a
cidade. Com a perda da "naturalidade", que lhe advinha de constituir o meio para
o fim que é a auto-suficiência do homem, a cidade converteu-se no instrumento a que os
poderosos recorrem para acrescentar "ilimitadamente" o seu poder. E assim se
desvaloriza a igualdade "política" e se dissolve o poder coesivo da cidade,
anulado pela força das diferenças sociais.
As consequências
desta "subversão" da concepção aristotélica de cidade são tremendas. A
primeira é a da constituição da Ética como domínio inteiramente alheio à Política.
Libertos da dupla constrição a que tradicionalmente estiveram sujeitos no Ocidente
primeiro, do poder político, depois, do religioso , os valores tornam-se
objecto de debate autónomo na sociedade democrática e domínio em que se busca o parecer
de especialistas para a resolução dos problemas mais candentes.
Esconjurados, ou
tendencialmente contidos, os perigos da teocracia e do totalitarismo, a única via aberta
à Ética assenta na equação da liberdade com a responsabilidade. Mas por ora assistimos
apenas aos debates em que proliferam os discursos dos representantes da sociedade como um
todo.
As profissões
apuram e reformam os seus códigos deontológicos, as empresas propagandeiam intenções
éticas, que todas instituições juram respeitar, enquanto os media se convertem
no ecossistema em que as novas moralidades se confrontam. A própria democracia respira ao
ritmo do on going show da atomização da consulta popular: entrevistas, painéis,
sondagens, referendos todas as perguntas são boas desde que representem os
interesses de quem decide e tenham resposta imediata. Assim o efeito completa a sua
retroacção sobre a causa, assegurando a ultra-estabilização da mudança.
Acima deste
variegado espectáculo, só a finança existe, prosseguindo o seu caminho sem angústias
morais, nem sobressaltos éticos: já acima da empresa e do próprio estado, o capital
ganhou a dimensão global a que o mercado tenta adequar-se como pode.
Correspondendo-lhe
às avessas, a felicidade atomizou-se em cada indivíduo. Percebemos agora quão longe nos
achamos dessa eudaimonia que para Aristóteles constituía o fim da vida política.
Os valores fundamentais são hoje a segurança e o conforto: ingredientes de uma qualidade
de vida a que a Política já alude, embora de raspão, na expressão "doçura
da vida" (1278b30: ver acima). De subversão da virtude, o hedonismo converteu-se no
princípio material que informa toda a escolha.
A olhos
conservadores, o quadro pode parecer um pouco assustador, mas não mais do que o
quotidiano de qualquer grande cidade europeia. A pergunta que vos deixo é a da
possibilidade de esta interpretação da democracia passar a identificar-se com ela, ou,
pelo contrário, constituir apenas um momento passageiro da sua evolução. Mas é bem
claro que, seja qual for a resposta, é por ela que passa a nossa avaliação da
actualidade, bem como a nossa capacidade de construir o futuro.
José Trindade Santos
Universidade de Lisboa |